11 fevereiro, 2017

Ao Menino

     Ao cair da noite, ouço o teu choro a chamar por mim, pra pôr fim à minha dor. Enfim o amor chegou.
     Ao me aproximar, seu lar: tão pequeno, tão sereno, em paz... dor jamais...
Me apresso, espero, não sei se devo ir. Me embaraço, me desfaço num teu sorriso só. Em paz... voltar jamais. Me encontrei aqui. Encontrei em ti descanso, num só teu olhar tão manso. E ao dormir tudo adormece, tudo se esquece de existir. Você chegou aqui.

16 janeiro, 2016

Dos joelhos calejados


   O Santíssimo Sacramento exposto no altar da Igreja. Quando entrei, chamou minha atenção um senhor de terno, bem arrumado, ajoelhado aos pés do altar. Poucos cabelos na cabeça, os que restaram já estavam cinzas como o paletó. De mãos juntas e cabeça baixa fez reverência. Saiu devagar, com um livro em mãos.
   Quando o vi me pareceu uma criança, daquelas que vai acompanhar o pai à Igreja e é exemplo pros irmãos mais velhos de piedade e caridade. Vi nele uma Igreja tão viva, resistente aos ventos, à chuva forte, aos tempo, aos nossos descuidados. 
   Ajoelhar-se nessa idade não é fácil quando não se está acostumado. Creio que tantos altares já o sustentaram em suas orações que ele não está tão diferente das ofertas postas a Deus. O que seus joelhos cultivaram enraizou-se em seu coração e já não sai. É tanta vida vivida! Mas algo permanece. Algo se tornou eterno.

08 janeiro, 2016

Do fogo


   Arrumando minhas coisas, revendo algumas delas após tanto tempo, encontrei a vela que recebi em meu crisma. Perguntei já tendo em mim uma resposta 'Mãe, o que faço com ela?Não queria deixar ela aqui de qualquer jeito.' 'Vocês não precisam de velas? Ah, usa pra rezar, enquanto você estiver por aqui. Vela foi feita pra queimar...'
   Isso ecoou na minha cabeça durante todo o dia. 'Não só ela.' Foi o que pensei imediatamente. 
   O fogo que aceita minha oferta, como aceitou a de Elias, vai fazendo com que, pouco a pouco, eu desapareça. E que mal é para a vela já não mais existir? Ela foi toda consumida naquilo que a torna plena. 

Não só ela.  

13 dezembro, 2015

João de Barro

          Eu vim de longe pra fazer meu ninho numa dessas árvores por aqui. Bem-te-vi, passarinho. Bem te vi na luz do sol. Bem me vi um rouxinol, pra cantar coisas de Ti. 
          É de pó minha casa, misturada à minha essência. É de porta virada pra que não entre a chuva forte, pra que não me visite a morte senão quando for o momento de, com calma, recebê-la. Agora, é hóspede de mim a vida que só sai de casa pra visitar comigo o que costumo olhar quando voo. E se me encanta uma gota d’água, aumenta em mim a sede só de olhá-la. Com pesar eu vou embora por não estar tão satisfeito como gostaria. Mas agora é hóspede também a alegria, que entra quase sem querer, “culpa” dos meus olhos atentos.
          É de barro a minha tenda que, no fim, volta pra terra de onde veio. Quando assim for, voarei ainda mais alto. E que venha a chuva forte pra eu dançar no meio.
Quando olho pro meu ninho, me vejo passarinho, tão pequeno, quase nada. Mas agora me reconheço e em paz eu adormeço: 'João de barro, não é essa a tua morada.'